Há muitos anos,eu não uso mais farda. Não preciso fazer a barba todos os dias, mas mesmo assim faço. Não preciso manter meu cabelo cortado curto, mas a cada mês ainda corto o cabelo. A muito tempo não tenho meu coturno para engraxar.Há muito tempo, não entro mais em forma.Há muito tempo não preciso mais passar minha farda fazendo vinco, mas as que eu consegui ficar comigo depois da baixa deixo-as sempre em ordem dentro do armário.Há um tempo atrás , passei em frente ao quartel e fiquei de longe olhando e lembrando.Há muito tempo, não ando mais em viatura, mas continuo usando muitos frases usadas no meio militar Há muito tempo, não participo de treinamentos de formatura, nem de desfiles cívico militares Há muito tempo, não desfilo nas formaturas matinais.Há muito tempo não presto continência, nem chamo os superiores de ‘senhor’.Há muito tempo, não fico mais na posição de sentido quando toca o Hino Nacional, Canção do Exercito, canção do expedicionario ou qualquer outra canção que sempre abrilhantava nossas formaturas.Eu era um civil quando ingressei nas fileiras do Exército Brasileiro. Não sabia nada da vida militar. Não sabia nem que iria usar farda. De cara me perguntei varias vezes, “O que eu estou fazendo aqui?”, depois, criei uma segunda pele, um sangue da cor verde oliva.Talvez seja complicado para um civil entender. Mas ser militar é muito mais que ter um emprego. É ter uma família, uma segunda casa, lições de vida e amizades duradouras. É compartilhar valores, missões, tradições. É multiplicar companheirismo, cumplicidade, camaradagem. É entender o significado literal de ‘servir’. É superar limitações e se orgulhar muito disso. Só entende quem passa por isso. Aliás, só entende mesmo quem vivencia.Há muito tempo eu me preparava para um dos dias mais difíceis da minha vida: o dia de deixar a caserna. Por mais que, eu soubesse que este dia chegaria e até tenha tentado me preparar para ele, confesso que não estava preparado. Doeu como se estivesse me despedindo de um grande amor.Ainda penso nas histórias do quartel do que eu contava para os meus amigos e familiares. Ainda lembro e sempre me recordo as datas festivas do calendário do Exército. Ainda conto as experiências vividas, como se tivessem acontecido na semana passada. Ainda me lembro das missões e solenidades que participei e com lágrimas nos olhos ainda lembro, a última vez que entrei em forma . Por mais incrível que possa parecer (milicos entenderão), minha família também lembra e revive muitas coisas comigo.Como sinto saudades... Saudade daquela camaradagem.Saudade das missões. Saudade do som da Canção do exercito,canção do expedicionario,Saudade da minha farda.mas agora componho a reserva ... Saudade O TEMPO passou muito rapido...Contudo, saudade é algo que não controlamos. Às vezes, nem ao menos sabemos explicá-la direito. Mas, em minha opinião, saudade é a confirmação de que algo que vivenciamos valeu a pena. Integrar o Exército Brasileiro valeu muito a pena. Foi muito mais que uma experiência de emprego, foi uma escola de vida, da qual hoje trago comigo os melhores ensinamentos.
Ao Exército Brasileiro, minha continência, meu reconhecimento, meu eterno respeito e minha admiração.
Brasil acima de tudo!”
A guarda morre mas não se rende.

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